ESPÉCIES LOCAIS, MANEJO CONSERVACIONISTA E USO SUSTENTÁVEL
ESPÉCIES LOCAIS, MANEJO CONSERVACIONISTA E USO SUSTENTÁVEL
Meliponicultura: O Ritmo da Espécie e Manejo Sustentável
Porque respeitar o ritmo e as características naturais das abelhas sem ferrão (meliponicultura) para garantir a produção sustentável e a saúde da colônia.
1. A Importância do Ritmo da Espécie:
As abelhas sem ferrão são silvestres e locais. A produção de bens (mel, pólen, própolis) está intrinsecamente ligada aos fatores ambientais disponíveis.
Ignorar o ritmo natural da espécie (e do local) leva à queda na produção e ao declínio da colônia.
2. Riscos de ignorar estes aspectos:
Intervenção Artificial (Ex: Xarope) - A alimentação artificial (como xarope de açúcar) é desaconselhada.
Mascaramento de Performance: Impede a avaliação da performance real da colônia e a identificação de problemas.
Qualidade Inferior: O mel produzido com néctar natural é superior ao mel de xarope.
Custo e Dependência: Cria custos adicionais e uma dependência do criador, podendo levar ao abandono e piora da situação da colmeia.
3. Especialistas vs. Generalistas:
Abelhas Sem Ferrão (tem um perfil mais Especialista): A maioria é especialista em nichos e floradas específicas. Um pequeno deslocamento (500m) pode impactar a colmeia, dependendo da espécie.
Apis mellifera (tem um perfil mais Generalista): É exótica e generalista (visita qualquer item açucarado, inclusive no lixo).
Exceção: Alguns grupos de abelhas sem ferrão como as do gênero Scaptotrigona são menos especialista e mais tolerantes a degradação ambiental, sendo ótimas para projetos de recuperação de áreas degradadas. Cito-as como a "Apis das sem ferrão".
4. Conclusão:
O criador, especialmente o iniciante, deve entender e seguir o ritmo da abelha em seu local específico, em vez de seguir cegamente experiências de outros locais.
Entender o funcionamento da espécie é crucial para o manejo e a otimização da criação e consequentemente da produção, se esta é a intenção do criador.
Neste caso, levará de 3 a 5 anos para um meliponicultor atingir um bom nível de produção de forma integrada e sustentável.
O "Ninho Piloto" surge como uma ferramenta de monitoramento e diagnóstico essencial para o meliponário (local de criação de abelhas sem ferrão).
O que é: O Ninho Piloto é comparado a um "termômetro natural" que ajuda o criador a entender as condições ambientais antes de expandir o meliponário.
Para que serve: Serve para fazer o monitoramento da qualidade e da capacidade de expansão do meliponário.
Vantagem: Evita que o criador tome decisões baseadas apenas em "achismos" ou experimentações que possam levar a prejuízos e garante que as abelhas tenham um espaço saudável para viver.
Uso: Em vez de colocar várias colônias diretamente, o criador deve primeiro instalar um Ninho Piloto no local para observar como as abelhas se comportam ao longo do tempo.
O que ele indica:
Se há alimento suficiente por perto (néctar e pólen).
Se o clima está favorável ou não.
Se há pragas que podem atrapalhar o desenvolvimento.
Se as abelhas estão conseguindo se desenvolver bem no ambiente local.
Estrutura e Análise:
O Ninho Piloto é uma estrutura lacrada/fechada (as abelhas entram e saem, mas a caixa não deve ser aberta ou ter alimento fornecido), evitando violações que prejudiquem a interpretação dos dados.
Ele permite captar uma série de parâmetros de análise anualmente.
A análise deve ser feita no momento ideal, que é no início da fase de enxameagem das abelhas naquele território.
Para a conservação de abelhas nativas há a necessidade de estabelecer protocolos para que a meliponicultura (criação de abelhas sem ferrão) seja praticada com o mínimo impacto possível, especialmente devido à importância das abelhas para os ecossistemas, à expansão da criação e às mudanças climáticas.
A proposta é oferecer uma abordagem prática para a meliponicultura, auxiliando pessoas leigas a tomar decisões sem depender de um taxonomista, já que muitas espécies são de difícil identificação.
Definição: A conservação de espécies não se resume apenas a criar abelhas.
Longevidade da Colônia: Para ser um conservacionista, você deve assegurar que suas colônias tenham uma longevidade maior do que a da rainha, que vive cerca de 2 a 3 anos. Isso significa garantir a troca de gerações de rainhas e que os machos (sexuados) possam fundar novas colônias naturalmente.
Não Conservacionismo: Qualquer prática que não dê à espécie a oportunidade de se multiplicar naturalmente, ou que intervenha nas dinâmicas locais de outras espécies, é considerada criação por lazer, e não conservacionismo.
Para garantir que as condições necessárias para a conservação estejam sendo cumpridas, você pode adotar duas medidas simples:
Crie apenas espécies típicas da sua região.
Crie apenas espécies que não exijam alimentação permanente (a alimentação artificial deve ser uma exceção).
A escolha das espécies depende da área de criação:
Área Urbana (na cidade): Foque em espécies pequenas, geralmente adaptadas a estes ambientes, como Jataí, Iraí ou Mirim.
Área Rural/Semiurbana (no campo): Você pode adicionar espécies de tamanho médio a grande, como Tubuna, Tubi ou Mandaçaia.
Como determinar as espécies típicas da região:
Muitas vezes, não haverá um especialista para indicar as espécies. Criadores locais podem não ser a melhor referência, a menos que você conheça a procedência das abelhas que eles criam.
Melhor Dica: Verifique as abelhas que estão em muros, calçadas, telhados, no campo, e em árvores de praças e jardins. Essas são as espécies mais indicadas.
Raio de Voo de Coleta: Você deve considerar que uma abelha pode ocorrer no município, mas a qualidade ambiental do seu bairro (o ambiente de criação) pode não ser satisfatória. Por isso, o raio de voo de coleta da espécie é o que você deve considerar como seu ambiente.
Sinal de Sucesso: Encontrando um ninho natural nos limites da área onde você fará a criação, há boas chances de sucesso.
O que será apresentado é uma tentativa de estabelecer padrões que facilitem as iniciativas de conservação, fruto das experiências do projeto Abelhas Nativas nos últimos 15 anos, e está aberto a aperfeiçoamentos futuros.
Com o crescimento das iniciativas de criação de abelhas, o momento é apropriado para normatizar tais práticas e minimizar os riscos de acelerar a extinção de espécies.
A obtenção de ninhos deve seguir a legislação e tem três possibilidades:
Captura por Ninhos-Armadilha: Capturar enxames usando caixas ou iscas-armadilha.
Compra de Criador Autorizado: Obter ninhos de um criador confiável e autorizado pelo órgão ambiental competente.
Fiel Depositário: Receber ninhos resgatados de empreendimentos autorizados (que exigem desmatamento ou inundação de área) para serem mantidos sob sua guarda.
A criação para conservação pode ser feita de duas maneiras, dependendo do nível de interferência:
A. Conservação por Intervenção Mínima
Características: As abelhas são criadas em recipientes total ou parcialmente fechados.
Manejo: Não há espaço para manejo, como divisão da colônia ou extração de mel.
Recipientes: Pode-se usar o próprio ninho-armadilha usado na captura, caixas de madeira com abertura mínima para a entrada do ninho, ou recipientes decorativos (como cabaças, vasos cerâmicos, bambu ou caixas simples).
B. Conservação por Intervenção com Manejo
Características: As abelhas são criadas em caixas de manejo.
Opções de Matrizes:
De Meliponários Estabelecidos: Começar com matrizes obtidas de meliponários já estabelecidos, de criadores locais e dentro do mesmo território de distribuição da espécie.
Por Ninhos-Armadilha: Obter colônias por meio de ninhos-armadilha colocados no local ou na região.
Atenção à Ambiência: Se a matriz vier de longe (mesmo que no mesmo bioma) ou se for obtida por ninho-armadilha distante, é crucial analisar a ambiência local de destino (a qualidade ambiental necessária para a abelha).
Chance de Sucesso: Matrizes obtidas próximas ao local têm alta chance de sucesso; se a origem for distante, o sucesso dependerá da ambiência local.
Muitas pessoas e entidades promovem a criação de abelhas sem o devido conhecimento.
Elas são estimuladas por quem vive do comércio de ninhos sem o devido controle, o que é ilegal.
Isso resulta na venda de espécies inadequadas e sem a devida orientação sobre onde e como criá-las.
Se você precisar de uma análise mais profunda da ambiência, a recomendação é consultar um especialista capaz de seguir os protocolos adequados.
Vamos falar da produção comercial de mel compartilhando minhas experiências no Projeto Abelhas Nativas no Maranhão, iniciado em 2002.
O projeto foi estabelecido em parceria com a Suzano (empresa de eucaliptocultura).
A Suzano planejava plantar 45.000 hectares de eucalipto no nordeste do Maranhão, e projetos de eucaliptocultura tipicamente vêm acompanhados de apicultura.
Visto a diversidade de abelhas nativas no Cerrado, o projeto foi implementado para capacitar agricultores na criação de abelhas sem ferrão.
O foco principal era estabelecer um uso sustentável dos produtos das abelhas, concentrando-se na produção de mel.
Antes do projeto, já existiam agricultores criando abelhas sem ferrão, mas como uma prática tradicional vinda de suas famílias.
As abelhas eram criadas em cortiços (troncos de árvores colocados horizontalmente), de onde o mel era extraído. Não havia criação em caixas de manejo.
A espécie central de foco do projeto era a Tiúba (Melipona fasciculata).
A Tiúba é comum no Cerrado maranhense.
É uma das espécies de Melipona mais produtivas (a produtividade varia por região).
Ao iniciar os primeiros meliponários, a orientação crucial era para que os criadores alimentassem as abelhas com extremo cuidado para que as colônias se desenvolvessem.
Desespero/Choque: O coordenador percebeu que os criadores não alimentavam as abelhas. Essa não-alimentação era uma prática geral deles, pois também não alimentavam porcos ou galinhas, que ficavam soltos.
Inviabilidade: A falta de alimentação inviabilizaria qualquer projeto consistente de meliponicultura.
O coordenador não pôde intervir, pois as comunidades ficavam em média 35 km de distância da sede do município.
Era inviável deslocar-se permanentemente para acompanhar a alimentação.
As estradas eram, na verdade, caminhos de terra, o que dificultava o acesso (continua no próximo video)
Continuando o vídeo anterior no Projeto Abelhas Nativas observou-se um processo de seleção natural na produção de mel e a lição fundamental para quem busca a produção comercial: a importância de a abelha estar em seu domínio de ocorrência.
O Filtro do Inverno: O coordenador percebeu que as abelhas que sobreviviam ao período de inverno (chuvas intensas no primeiro semestre) e conseguiam estocar mel no segundo semestre eram, na verdade, as mais aptas.
Seleção e Produção: Aqueles ninhos que superavam essa fase tinham os melhores resultados de produção.
Melhoramento Genético: O projeto passou a dividir as melhores colônias (aquelas que passavam pelo filtro e produziam bem) e a retirar as fracas do meliponário, iniciando um processo de seleção e melhoramento.
A Deterioração: Foi estabelecido que era crucial não trazer ninhos selvagens para o meliponário.
O Problema: A introdução de ninhos selvagens com genética ruim para produção de mel acabava prejudicando o processo de melhoramento e resultava em maus resultados nos meses seguintes.
Na região, onde a produção anterior estava em torno de 600 ml/ano, o projeto conseguiu atingir uma produção média em torno de 2,5 a 3,5 litros de mel por ano.
Uma comunidade que seguia rigorosamente todas as orientações, mesmo estando extremamente isolada, tirou em duas caixas (mãe e filha) 12 litros de mel e 10 litros de mel, respectivamente.
A Lição: Seguir procedimentos determinados pode levar a um melhoramento na produção da colônia.
A lição mais importante para a produção comercial é: a abelha tem que estar no seu domínio de ocorrência.
Domínio vs. Bioma: O domínio é o ecossistema onde a abelha coleta seu alimento, e não necessariamente o bioma. Por exemplo, uma abelha pode estar no bioma Mata Atlântica, mas a cidade (a não ser que seja uma espécie sinotrópica adaptada a esse ambiente) não é seu domínio de ocorrência.
Onde Criar:
Se sua abelha está em uma área urbana e não consegue se desenvolver sem alimentação artificial, você deve buscar um espaço na periferia da cidade, em áreas rurais ou de matas próximas.
Produção Comercial vs. Lazer: Se você quer produzir mel para consumo próprio ou para amigos, pode ser feito com menos rigor, mas se o objetivo é a produção comercial, é preciso seguir orientações específicas e garantir a preservação do domínio de ocorrência natural da espécie, caso contrário, a produção não será suficiente.
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